O calor não avisa. Vai deteriorando silenciosamente a bateria de arranque durante os meses de maior exposição solar e, quando finalmente falha na primeira manhã fria de dezembro, quase sempre culpamos o frio. Na FQS BATTERY, observamos este fenómeno há mais de 16 anos e é importante contar a história ao contrário.
Há uma situação que se repete todos os invernos nas oficinas da nossa rede. Entra um condutor com ar aborrecido: o automóvel não arrancou nessa manhã, com a primeira geada a sério. «A bateria morreu de repente por causa do frio.» E a resposta é quase sempre a mesma: essa bateria não morreu com a geada. Morreu em agosto. O frio apenas revelou os danos.

É o grande paradoxo da bateria de chumbo-ácido, tanto a tradicional como a utilizada nos automóveis modernos com sistema Start & Stop. Falha com o frio, mas deteriora-se com o calor. O inverno não a destrói; expõe a sua fragilidade. Para compreender porquê, importa analisar por um momento o que acontece dentro daquela caixa a que quase ninguém presta atenção até ficar apeado.
O QUE O CALOR LHE FAZ POR DENTRO
Uma bateria é química pura, e as reações químicas aceleram com a temperatura. No papel pode parecer positivo — mais reação, mais energia —, mas, na prática, o calor acelera precisamente os processos que se pretendem evitar.
O primeiro é a perda de água. O eletrólito contém água que, acima de determinada temperatura, começa a evaporar-se e a escapar sob a forma de gás. Se o nível baixar e deixar as placas expostas, essa parte da bateria deixa de funcionar e surge a sulfatação. Nas baterias antigas, com tampas, era possível repor a água destilada. Nas atuais baterias seladas, incluindo as tecnologias AGM e EFB utilizadas nos automóveis com Start & Stop, não há nada para abrir: a água perdida não pode ser reposta.

O segundo processo, e aquele que mais influencia a vida útil, é a corrosão da grelha. A placa positiva vai oxidando com o tempo, e o calor acelera significativamente esse desgaste. É um processo lento, invisível do exterior, que vai consumindo a estrutura interna até que, um dia, a bateria deixa de conseguir fornecer o pico de corrente exigido pelo motor de arranque. Aplica-se aqui uma regra prática utilizada no setor, proveniente do Battery Council International: por cada aumento contínuo de 8 a 10 °C acima dos 25 °C, a vida útil da bateria reduz-se aproximadamente para metade. Não se trata de um valor laboratorial absolutamente exato, mas de uma regra prática. Ainda assim, explica por que razão uma bateria que dura cinco ou seis anos num clima ameno muitas vezes não ultrapassa três ou quatro anos com os verões do sul da Península Ibérica.
O terceiro é a autodescarga. Com o calor, a bateria de um automóvel estacionado perde carga naturalmente com muito maior rapidez. Um automóvel deixado durante duas semanas ao sol no parque de estacionamento de um aeroporto, em agosto, não estará nas mesmas condições quando regressar.
Uma bateria deteriorada nem sempre deixa de funcionar repentinamente. Em muitos casos, apresenta sinais prévios que o condutor não deve ignorar:
SINAIS DE UMA BATERIA ENFRAQUECIDA
- O motor roda mais lentamente durante o arranque.
- As luzes perdem intensidade ao tentar ligar o automóvel.
- O sistema Start & Stop deixa frequentemente de funcionar.
- Surgem avisos relacionados com a bateria ou com o sistema elétrico.
- Os vidros elétricos, a climatização ou outros equipamentos funcionam com menor intensidade.
- Ocorrem perdas de memória ou alterações das configurações.
- Os terminais apresentam corrosão ou ligações deficientes.
- A caixa apresenta deformações, fissuras, humidade ou sinais de fuga.
Um automóvel com Start & Stop pode voltar a ligar o motor dezenas de vezes por dia, e não apenas uma. Por essa razão, utiliza baterias FQS BATTERY com tecnologia AGM ou EFB, mais resistentes aos ciclos repetidos.
O AUTOMÓVEL TORNA TUDO MAIS DIFÍCIL
Antigamente, a bateria tinha uma vida relativamente tranquila. Hoje trabalha muito mais e em condições mais exigentes. O compartimento do motor, onde tudo está muito compacto para melhorar a aerodinâmica e aproveitar o espaço, pode atingir temperaturas extremamente elevadas. A bateria encontra-se muitas vezes instalada nesse local, exposta diretamente ao calor. Não é por acaso que alguns fabricantes a deslocaram para a bagageira ou para debaixo de um banco, ou que instalam de origem uma proteção térmica.
Existe ainda outro fator que quase ninguém verifica e que causa estragos no verão: a sobrecarga. O regulador do alternador deve reduzir a tensão quando a bateria está quente. Se falhar e continuar a carregar na potência máxima com 40 °C debaixo do capô, o eletrólito pode entrar em ebulição e a bateria secar em poucas semanas. Muitas «baterias defeituosas» que chegam às oficinas são, na realidade, vítimas de um sistema de carga que ninguém verificou.
O QUE O CONDUTOR PODE FAZER
A boa notícia é que quase tudo o que prolonga a vida útil de uma bateria no verão é barato ou gratuito. Não existem soluções milagrosas: apenas bom senso aplicado atempadamente.
- Estacione à sombra.
Ao meio-dia, uma garagem pode estar quinze graus mais fresca do que a rua, e a bateria beneficia disso todos os dias. - Verifique-a antes da chegada do calor intenso.
Não espere até que o automóvel deixe de arrancar. Um teste de carga realizado com um aparelho de diagnóstico demora cinco minutos e permite saber se a bateria irá aguentar o verão ou se está próxima do seu limite. - Mantenha os bornes limpos e bem apertados.
A corrosão esbranquiçada ou esverdeada aumenta a resistência elétrica. Uma escova, massa lubrificante específica e a verificação de que a bateria está bem fixa são suficientes. - Se o automóvel ficar imobilizado, utilize um carregador de manutenção.
No verão, a autodescarga acelera e uma bateria que permanece descarregada durante várias semanas acaba por sulfatar. - Verifique a tensão de carga do alternador.
Se existir sobrecarga, nenhuma bateria resistirá ao calor de agosto. Uma oficina pode verificá-lo rapidamente.

RECONHECER QUANDO É NECESSÁRIO SUBSTITUIR A BATERIA
Nenhuma bateria dura para sempre, sobretudo num clima quente. Se a sua tiver cerca de quatro anos e se aproximar outro verão rigoroso, muitas vezes compensa substituí-la antecipadamente em vez de a levar ao limite e correr o risco de uma avaria no pior momento. Os sinais de que está a chegar ao fim da vida útil são conhecidos: arranque lento, sobretudo com o motor quente; luzes que perdem intensidade durante o arranque; e uma caixa inchada ou deformada, quase sempre indicadora de sobrecarga ou excesso de calor. Quando a caixa apresenta deformações, não há muito a discutir: a bateria deve ser substituída. Até à chegada da nova, um arrancador portátil na bagageira pode evitar-lhe muitos problemas.
Cuidar da bateria no verão significa apostar no básico: sombra, uma verificação atempada, bornes em boas condições e não a deixar descarregada ao sol. Nada de espetacular, mas é o que faz a diferença entre uma bateria que atinge a vida útil prevista e outra que falha sem aviso na primeira manhã fria, quando já é tarde para tudo, exceto chamar a assistência em viagem.
